sexta-feira, 26 de março de 2010

RAÍZES MUÇULMANAS DO BLUES PARTE I


A música dos famosos cantores de blues americano, através do Sul,  de volta a cultura da África Ocidental

 

http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/c/a/2004/08/15/INGMC85SSK1.DTL 

 

Domingo, 15 Agosto de 2004











W.C. Handy. Foto cortesia de Frank Driggs Collection
Sylviane Diouf conhece a sua audiência, pode  beirar o ceticismo, por assim querer demonstrar a ligação entre o Islão e o blues norte-americano, ele vai lançar duas gravações: o chamado muçulmano para a oração (recitação religiosa que ouviu das mesquitas em todo o mundo) e "Levee Camp Holler" um tipo de blues primitivo, as primeiras músicas que surgiram no Delta do Mississipi mais de 100 anos atrás.

"Levee Camp Holler" não é música ordinária. É o resultado do trabalho de ex-escravos que aravam a terra e que se deslocavam em direção ao Norte, todo o dia no pós-Guerra. A versão que Diouf utiliza nas apresentações tem letras que, como o chamado para a oração, fala acerca de um Deus glorioso. ("Bem, Senhor, eu acordei esta manhã, o homem, sentindo-me mal . . . Bem, eu estava pensando sobre os bons tempos, Senhor, que, eu tive uma vez") Mas é a melodia da canção e as alterações, nota estreita paralela do Islã mais conhecidas nos refrões. Como um convite à oração, "Levee Camp Holler", enfatiza palavras que parecem tremer e agitar cordas vocais do narrador. Dramáticas mudanças em escalas musicais pontuam tanto "Levee Camp Holler" e a chamada para oração. A entonação nasal é evidente em ambos.

"Eu fiz uma palestra há alguns anos em Harvard, onde eu lançava essas duas coisas, e a sala em peso absoluto simplesmente explodiu em aplausos, porque (a conexão) foi óbvia", diz Diouf, um autor e estudioso, que também é pesquisador da Nova York Schomburg Center for Research in Black Culture. "As pessoas diziam: "Uau. Isso é realmente audível. É, realmente, lá."

É, realmente, lá por causa de todos os escravos muçulmanos da África Ocidental que foram levados à força para os Estados Unidos durante três séculos, a partir de 1600 para meados de 1800. Para cima de 30% dos escravos Africanos no Brasil, eram muçulmanos, e um número incontável deles falavam e escreviam em árabe. Apesar de ser pressionado pelos donos de escravos para adotarem o Cristianismo e renunciar às suas antigas formas, muitos desses escravos continuaram a praticar sua religião e costumes, tradições fundido-as em seu novo ambiente, no sul do país, EUA, antes da guerra. Forçado a fazerem-se servis ao trabalho nas plantações, por exemplo, eles ainda conseguiam, todo o dia, ouvir a voz de Deus no Alcorão. Estas práticas dos escravos acabou evoluindo - décadas e décadas depois, em paralelo, juntado à tradições diferentes da África - em gritos e berros que gerou o blues, assim o acreditam os historiadores.

Outro modo de dizer que os escravos muçulmanos tiveram uma influência indireta no blues é falar sobre os instrumentos usados. O tambor (que era comum entre os escravos da Congo e outras regiões muçulmanas da África) foi proibido pelos senhores de escravos, que se sentiram ameaçados ao permitirem que os escravos se comunicassem uns com os outros, uma vez que inspirava grandes ajuntamentos de escravos. Instrumentos de cordas (que foram favorecidos pelos escravos vindos de regiões muçulmanas da África, onde há uma longa tradição de contar histórias de modo musical) geralmente eram permitidos porque os proprietários de escravos os considerava semelhantes aos instrumentos europeus; como o violino. Assim, os escravos que conseguiram construir um banjo ou outro instrumento (banjo americano originado de escravos africanos) poderiam aparecer mais amplamente em público. O solo - música escrava criada exclusivamente com elementos da música árabe-islâmica, impressa por séculos de presença do Islã na África Ocidental, diz Gerhard Kubik, um professor de etno-musicologia da Universidade de Mainz em Alemanha, autor do livro mais abrangente sobre a ligação da África com o blues (África e o Blues").

Uma influência sobre o Blues

Kubik acredita que muitos cantores de blues de hoje, inconscientemente, utilizam estes padrões árabes-islâmicos em sua música. Usando a linguagem acadêmica para descrever esse hábito, Kubik escreve em "África e o Blues", que "o vocal em muitos cantores de blues, usam melisma (utilização de muitas notas em uma sílaba, por isso, em vez de uma nota que produz, por exemplo, um único som de "Ah", você deseja obter uma nota que produz algo como "ah-ahhhh-ahhh-ah-ah) a entonação ondulada, e, assim por diante, o que vem a ser uma herança dessa grande região da África Ocidental, que tinha estado em contacto com o Mundo árabe-islâmico do Magrebe (região árabe-muçulmano do Norte de África) desde os séculos VII e VIII. Entonação ondulada refere-se a uma série de observações que cercam a grande escala menor e vice-versa, algo que é muito comum em ambos: no blues e no convite à oração muçulmana. 

Kubik resume a tese desta maneira: "Muitos traços que têm sido considerados incomuns, estranho e difícil de interpretar no blues do passado, segundo os investigadores podem agora serem melhores entendidos como elementos estilísticos transformadores árabe-islâmico."

A extensão desta ligação entre o Islão e o blues norte-americano é ainda um assunto a ser debatido. Alguns estudiosos continuam a insistir que não há conexão e muitos, nos dias de hoje, considerados como os melhores músicos de blues, diriam que sua música tem pouco a ver com uma religião mais cujos clérigos tentam com certa regularidade ridicularizar os males da música pop ocidental. No entanto, um crescente corpo de evidências – foram reunidos por acadêmicos como Kubik e por muitos outros como Cornélia Walker Bailey - uma autora cujo tatara-tatara-tatara-tatara-avô era um escravo da Geórgia que rezava em direção à Meca - sugerem uma relação profunda entre os escravos de origem islâmica e a cultura americana. Com certeza, os escravos muçulmanos da África Ocidental foram apenas um fator a mais na formação do blues norte-americana, diz Barry Danielian, um trompetista que trabalhou com Paul Simon, Natalie Cole.

Convite à oração

Danielian, que é muçulmano, diz que os não-muçulmanos encontrarão dificuldade em aceitar este, porque eles não sabem o suficiente sobre a música árabe ou islâmica. A chamada à oração e recitações muçulmanas, praticadas por escravos americanos tinha musicalidade, assim como ainda hoje as têm, mesmo que não sejam pensadas como música pelos ocidentais. "Eu faço parte da ordem Tijaniyya Sufi, que é baseado no Oeste e Norte da África", diz Danielian, que mora em Jersey City, N.J". E eu sei que, quando estamos juntos, principalmente quando estão os cheikhs (líderes) e há centenas de pessoas juntas, fazendo as ladainhas, percebemos o quanto elas são musicais. Você ouve o que os americanos chamariam soulfulness ou blues. Isto é definitivamente para lá."

O que os americanos já pensam como blues, foi desenvolvido nas décadas de 1890 e 1900, nos estados do sul como a Louisiana, Mississippi e Alabama. Blues, a música, foi uma conseqüência, uma mistura de todas as músicas, bem diferentes, que estavam sendo tocadas no Sul, por  menestréis e espetáculos de rua. Muitos artistas de blues não reconhecem as raízes Africanas ou muçulmanas da música, porque, até então, as canções tinham uma completa fusão com a música branca, européia e tinha perdido as suas conexões óbvias para um continente que era 4.000 milhas de distância. Além disso, pela virada do século 20, os descendentes de escravos muçulmanos da América tinham, geralmente, se convertido ao cristianismo pela força das circunstâncias. Entre os negros do sul, nesse período, houve alguns expoentes do Islã. Mas, estudiosos como Diouf e a pela pesquisa de Kubik, nesse período da história, eles conseguem perceber a abundância de sinais que não eram evidentes há 100 anos.


Continua...
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